Felicidade Clandestina ☕


⭐⭐⭐⭐⭐

Sinopse: Desde o início, Clarice Lispector recusou a escravidão dos gêneros. Escrevia por fragmentos que depois montava. Escrevia aos arrancos, transcrevendo um ditado interior. As estruturas clássicas não faziam parte desse ditado. Seu olhar passava por cima das regras, quase voraz em sua busca da essência. Este livro bem o demonstra. É composto por contos escritos em épocas diversas da vida de Clarice. E por não-contos. Muitos deles - como Felicidade clandestina, que dá título ao livro - foram publicados no Caderno B do Jornal do Brasil. Como crônicas. Que também não eram crônicas. Convidada em 1967 para escrever semanalmente no JB, Clarice deparou-se com um fazer literário novo. Intimidade a princípio, logo negou os padrões vigentes: "Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gêneros. Gêneros não me interessam mais". E "isto" era a mais pura e rica literatura. Nos contos/crônicas/textos - que eu, como subeditora do Caderno recebia semananlmente, datilografados em um envelope de papel pardo, com a recomendação, sempre repetida, de não perdê-los pois eram originais sem cópia - Clarice se expunha em recordações familiares e de infância. Sua irmã Tânia ainda se lembra da menina, filha de livreiro, que encontramos em Felicidade clandestina, atormentando Clarice por conta do empréstimo de um livro. O professor de Desastres de Sofia realmente percebeu o tesouro que Clarice menina escondia. E Come menino é um claro diálogo entre a autora e seu filho. Nada diferencia esses contos, escritos para serem crônicas, de outros contos que aqui estão, escritos para serem contos e publicados anteriormente no livro A legião estrangeira. Pois a força de Clarice não nos chega através das estruturas. Seus textos podem ser desmontados, desfeitos em pedaços - até mesmo diferentes dos fragmentos originais - sem que se perca sua intensidade. Cada palavra ou frase dessa escritora sem igual origina-se em camadas tão fundas do ser, que traz consigo, mais do que um testemunho, a própria voltagem da vida. (Marina Colasanti - jornalista e escritora)

   Concluído o livro Felicidade Clandestina de Clarice Lispector. São contos, ou seja, obra de ficção que cria um universo de seres, de fantasia ou acontecimentos. Não creio que seja tão ficção assim, tem muito de Clarice nessas palavras tão bem escritas! Percebe-se também algumas características, o modo como ela descreve os acontecimentos de forma crua, sincera e triste. Ela puxa para um lado mais sombrio, mais cheio de drama, sentimentos que ela não consegue controlar, que ela sente e ninguém conseguiria entender pq só nela bate forte. E eu amei esse jeito Clarice de escrever.

    Alguns contos me chamaram mais atenção que outros como o do Ovo e a Galinha. Sem entender nada comecei a achar que fosse uma metáfora, mas sobre o que? Depois achei que fosse só um ovo mesmo. Para a própria autora o conto é um mistério, os ofícios de um escritor que observa e com o poder das palavras consegue fazer com que cada leitor tenha sua própria reflexão.

   No conto "A Legião Estrangeira", fez ela me pegar desprevenida com aquele final, fiquei parada por alguns minutos e pensei, “isso é brilhante”. Se fosse contar aqui em detalhes ficaria muito grande, mas resumindo, Clarice diz: “as vezes a gente mata por amor”. Ou seja, as vezes amamos tanto e deixamos nos levar de tal maneira, como uma criança que vê um pintinho e se alegra, que acabamos sufocando.

  “Sem o medo havia o mundo”. Que pelo que entendi é que sem experiência, sem dizer que é perigoso ou impossível, sem saber que dói, ou sem conhecer o medo, fazemos e com nossos atos surgem as consequências e essas serão ensinamentos , cicatrizes que nos guiarão nas próximas decisões, serão os medidores de amor.

   No conto “Os Obedientes” existe uma batalha entre realidade e irrealidade. A morte da individualidade de um casal que viveu muito tempo juntos, seguindo a rotina que julgavam “apropriada”. Tiveram sonhos separados, particulares e se apegavam a essa fantasia do “e se”. Ele pensava em aventuras amorosas e ela em um homem que a salvaria. Ela perdeu um dente comendo maçã, olhou-se no espelho e viu o que os anos fizeram com sua aparência, em seguida se mata. O marido estava livre afinal.

É Brilhante! Vale muito a pena ler esse livro!
-T

Páginas: 160
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Gênero: Contos



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